Os resultados das avaliações de desempenho no Brasil revelam, sistematicamente, que nossos estudantes não estão aprendendo o que deveriam aprender no tempo previsto. Segundo o Saeb 2023, por exemplo, quase 40% das crianças do 5º ano ainda estavam nos níveis baixos de Língua Portuguesa. Para lidar com esse problema, não bastam soluções pontuais: são necessárias ações articuladas e de longo prazo. Partindo desse princípio, estruturamos um projeto para apoiar duas escolas com contextos e histórias distintas: o Educandário Espírita Blaise Pascal, em Campo Grande (MS), e a Escola Pluricultural Odé Kayodê, em Goiás (GO). A seguir, compartilhamos as principais etapas do projeto.
Diagnóstico
Nosso ponto de partida foi aplicar uma avaliação de entrada com o objetivo de identificar as habilidades que os estudantes desenvolveram no ano anterior, para mapear quais defasagens estavam carregando de um ano para outro nos componentes de Matemática e Língua Portuguesa dos anos iniciais do Ensino Fundamental.
Para isso, utilizamos o Avalia e Aprende, do Instituto Reúna, um instrumento gratuito que parte de habilidades da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), define descritores relacionados a elas e apresenta respostas às questões que indicam o nível de aprendizagem do estudante, permitindo uma análise mais profunda e detalhada.
Análise e compartilhamento dos dados
Uma vez definido o instrumento de avaliação, estabelecemos os indicadores de aprendizagem:
- Rendimento (% de alunos que acertaram cada questão da prova); e
- Aproveitamento (% de descritores que cada aluno acertou).
Posteriormente à aplicação do diagnóstico, também identificamos outros resultados, como a média e a mediana. Todos esses dados nos possibilitaram gerar uma série de gráficos importantes para a equipe gestora conseguir traçar planos para o ano letivo:
- por descritor
- por ano
- por componente
- por prática de linguagem (Língua Portuguesa) e por eixos temáticos (Matemática)
Veja alguns exemplos:

*a prova foi aplicada no início do ano, considerando as habilidades que deveriam ter sido desenvolvidas no ano anterior.



Essa análise foi consolidada em relatórios e apresentada em devolutivas específicas para cada escola, destacando pontos fortes, lacunas prioritárias e sugestões de ação. O retorno às equipes foi essencial para criar um clima de corresponsabilidade e engajamento: professores e gestores puderam enxergar com clareza onde estavam os maiores desafios.
Lista de Aprendizagens Prioritárias e recursos didáticos
Com base nessa análise, mapeamos as habilidades com rendimento menor que 50% para construir a lista de aprendizagens prioritárias (LAP). A ideia era que ao saber onde estavam as maiores defasagens, seria possível que a equipe gestora e docente coordenassem ações para o desenvolvimento delas.
Aqui, é válido dizer que adaptamos o instrumento do Avalia e Aprende para contemplar apenas questões das habilidades focais da BNCC. As habilidades focais, também definidas pelo Instituto Reúna, são aquelas que precisam ser desenvolvidas previamente a outras porque sem elas o estudante não consegue avançar para conhecimentos mais complexos. Dessa forma, entendemos que as habilidades presentes na LAP eram essenciais de serem desenvolvidas pelos alunos não apenas para aquele ano, mas também considerando a continuidade da aprendizagem nos anos seguintes (basicamente, a essência da recomposição das aprendizagens).
Com a LAP, também fizemos uma curadoria de planos de aula da Nova Escola para que os professores pudessem acessar recursos pedagógicos de qualidade que os apoiassem no trabalho desenvolvido em sala de aula focando no desenvolvimento das habilidades defasadas.
Formação continuada
Todas essas ferramentas contribuíram e nos deram insumos para organizar um processo de formação de professores planejado para acontecer durante 16 encontros quinzenais, sendo dois deles presenciais. O percurso desenvolvido tem como objetivo desenvolver entre os docentes a capacidade de planejar aulas focadas na aprendizagem dos estudantes e na superação das defasagens mapeadas. Estamos entrando na reta final deste percurso.
Vale destacar que todo esse processo foi alinhado, desde o início, com a equipe gestora das duas escolas. Dessa forma, não apenas elas puderam compartilhar e validar a ideia com as suas equipes, mas propor os ajustes necessários para que o projeto fizesse sentido para suas realidades. Isso se reflete no comprometimento de diretores, coordenadores pedagógicos e professores – do momento da aplicação, passando pela análise compartilhada dos dados, até a reflexão sobre as estratégias didáticas -, que está sendo fundamental para o sucesso do projeto.
Em breve, por aqui, compartilharemos os resultados dessa implementação e como as equipes gestoras e docentes avaliam o processo. Até aqui, o que fica é a certeza de que, quando combinamos avaliação, recursos didáticos e formação, abrimos caminhos reais para que os estudantes recuperem aprendizagens e sigam avançando.
