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26 de novembro de 2025
IA na era da Educação ou Educação na era da IA?
Como garantir que a tecnologia sirva à aprendizagem e não o contrário.
IA na era da Educação ou Educação na era da IA?

Atualmente, é inevitável acompanhar o volume de discussões sobre o rápido desenvolvimento das Inteligências Artificiais (IA) em todos os setores, fazendo um alvoroço positivo – ou, no mínimo, curioso – com as inúmeras possibilidades atreladas a isso. A presença da IA nas salas de aula e nos processos de ensino e aprendizagem tem intensificado os debates — tanto pelas inúmeras possibilidades de transformação que oferece, quanto pelo risco de aprofundar as desigualdades sociais já marcantes no Brasil.

É nesse contexto que este artigo se propõe a fazer uma reflexão provocativa: afinal, em qual era estamos vivendo? Na era da Educação ou na era da Inteligência Artificial?

Ao aceitarmos que a IA está na era da Educação, coloca-se a pedagogia e o desenvolvimento humano no centro da discussão, relegando os avanços tecnológicos ao seu papel de potencializador de capacidades humanas, ou seja, um propósito maior e mais complexo do que o seu mero uso diário. Esta perspectiva é fundamental para evitar que a inovação tecnológica se torne um fim em si mesma, ignorando as necessidades reais dos alunos e educadores diante dos desafios monumentais que estes encaram todos os dias.

A Falácia da “Bala de Prata”

No Brasil, um país de dimensões continentais e desigualdades sociais profundas, a adoção de novas tecnologias deve ser encarada com um realismo ainda maior. A ideia de que a IA será a “bala de prata” para resolver as deficiências da educação básica é, no mínimo, ingênua e já temos inúmeras experiências semelhantes, de soluções que supostamente iriam resolver os abismos educacionais no país, como o entusiasmo em torno das lousas digitais que trariam uma nova dinâmica para a sala de aula; dos tablets que individualizariam a experiência de aprendizagem dos alunos e assim segue. A questão é que o sucesso destas “inovações” sempre dependiam de algumas questões fundamentais e que até hoje não conseguimos avançar significativamente – pelo menos de maneira estruturada em todo o território nacional – como o caso de formação dos professores para que tivessem a capacitação adequada para se utilizar de uma nova ferramenta; a adequação pedagógica, ou seja, a integração entre métodos pedagógicos e o uso destes softwares e hardwares; e, por fim, o próprio contexto e infraestrutura para tal uso, onde muitas vezes se esbarravam em problemas de conexão, ausência de manutenção dos equipamentos e desigualdade no acesso.

Portanto, é crucial aceitarmos e compreendermos que a IA é uma inovação poderosa, mas, como toda tecnologia anterior, seu potencial só será realizado se for acompanhada de ceticismo e de uma reforma política e pedagógica profunda, além de investimento maciço na formação e valorização dos educadores.

Em um evento realizado pelo Todos pela Educação em parceria com o BID, foi debatido, dentre outros, exatamente o tema da IA na Educação.

Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú, sabiamente trouxe luz a uma interpretação valiosa sobre as IAs, de que independente do campo do saber, nós devemos cada vez mais compreender que as IAs não são meramente uma nova ferramenta, mas sim uma Tecnologia de Propósito Geral (TPG) ou seja, “[…]uma tecnologia capaz de transformar estruturalmente o modo como produzimos, inovamos, compartilhamos conhecimento e geramos memória coletiva.” Esta visão de Propósito Geral é fundamental para aceitarmos a IA e a partir disso adequarmos a sua implementação para que ela de fato seja parte do protagonismo que deverá qualificar o processo de ensino e aprendizagem no Brasil, garantindo assim, finalmente uma Educação de qualidade para todos.

Diante disso, o que se torna essencial é o debate sobre o que realmente importa na educação. Ao mesmo tempo em que pensamos em algoritmos complexos ou sistemas de tutoria inteligente, é crucial garantirmos, também, que os alunos dominem habilidades básicas e elementares. Sem o domínio da leitura, escrita, interpretação de texto e matemática básica, qualquer ferramenta de IA se torna ineficaz ou, na melhor das hipóteses, um luxo inacessível para os que já vivem em um contexto de extrema desigualdade.

O Risco da Desigualdade Aprofundada

Um dos maiores perigos que me geram desconforto é sobre a adoção irrestrita da IA na educação e o quanto isso pode potencializar as disparidades já existentes. Em um país onde o acesso à internet de qualidade, a dispositivos e até mesmo à eletricidade é irregular, sem dizer a própria dificuldade e baixa qualidade no corpo docente, a introdução de plataformas digitais pode criar uma divisão: a dos que têm acesso completo, a dos que têm acesso limitado e a dos que não têm acesso nenhum.

A pesquisa “TIC Educação 2023”, conduzida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), mostra que, embora o acesso à internet tenha crescido, as desigualdades regionais e socioeconômicas persistem. Escolas públicas, especialmente nas áreas rurais e periféricas, ainda enfrentam infraestrutura precária e falta de equipamentos. Outro exemplo do quão desafiadora é a desigualdade, é um dado presente no Anuário da Educação 2025 realizado pelo Todos pela Educação, onde somente 4,5% das escolas com conexão à rede de internet, possuem parâmetros adequados para uso pedagógico em sala de aula (tanto para aluno quanto para professor).

Nessas realidades, a prioridade seria a IA, ou garantir que cada aluno tenha um ambiente seguro, um professor qualificado e materiais didáticos básicos para aprender?

A humildade para focar no que importa

O debate sobre a IA na educação deve mais do que nunca ser conduzido com humildade e pé no chão como muito bem argumentado pelo professor e pesquisador IG Ilbert Bittencourt, um dos fundadores da IA. Edu – Instituto para Inteligência Artificial Desplugada na Educação – e do NEES – Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais – e titular da Cátedra UNESCO sobre IA Desplugada na Educação. É necessário compreendermos a tecnologia de maneira mais ampla e realista, colocando-a como uma aliada poderosa para os educadores, ampliando “[…] as capacidades do professor, permitindo que ele foque em sua tarefa mais importante: acompanhar os estudantes de forma individualizada e apoiar de forma mais efetiva o processo de ensino-aprendizagem” (CIEB 2019). No entanto, o papel do professor, a interação humana e a mediação pedagógica continuam insubstituíveis. Ainda, segundo Bittencourt sobre a pesquisa a respeito do uso da Inteligência Artificial no processo de gestão e de ensino-aprendizagem: “O que mais temos aprendido durante a pesquisa com Inteligência Artificial é que não se trata de automatizar processos por si só. O mais importante para a educação está na combinação da inteligência humana e da inteligência de máquina. Os resultados são sempre mais efetivos”.

Exemplo disso pode ser analisado em um estudo produzido pelo J-PAL (The Abdul Latif Jameel Poverty Action Lab) em parceria com a Fundação Lemann, Google e a Secretaria de Educação do Espírito Santo (SEDU/ES), que avaliou o impacto da Inteligência Artificial no aprendizado da escrita em cerca de 19.000 alunos do ensino médio em 178 escolas públicas no Espírito Santo, Brasil. O principal objetivo foi verificar se sistemas automatizados de avaliação de redação poderiam oferecer apoio significativo para os professores em tarefas demoradas, permitindo que eles focassem na personalização dos apoios e mediações pedagógicas para os alunos. Os resultados indicaram que a introdução das tecnologias AWE — tanto a versão “pura” (apenas com IA) quanto a “aprimorada” (IA com correção humana adicional) — levou os professores a realocarem seu tempo de tarefas rotineiras para atividades mais complexas, como discussões individuais com os alunos.

A intervenção demonstrou ser eficaz: os estudantes nos grupos de intervenção praticaram mais redações e, como resultado, os escores gerais de redação no ENEM aumentaram em cerca de 0,09 desvios-padrão em ambos os grupos. O achado mais significativo é que a versão “pura” do AWE (apenas IA) produziu efeitos positivos e quase idênticos aos da versão “aprimorada” (com corretores humanos). Isso sugere que o componente de correção humana, que é mais caro e difícil de escalar, não foi necessário para alcançar os mesmos resultados de melhoria na pontuação. Em resumo, a IA pode superar gargalos na acumulação de habilidades de escrita devido às limitações de tempo dos professores, oferecendo uma solução de baixo custo e facilmente escalável para políticas públicas de educação.

Para finalizar, adotar a perspectiva da IA na era da Educação significa assumir um compromisso com a equidade e com o essencial. Significa reconhecer que, para muitos brasileiros, o desafio não é dominar a entrada em um novo paradigma do mundo, mas sim dominar a escrita, a leitura, a matemática ao mesmo tempo em que se utilizam da Inteligência Artificial como algo permanente – tão permanente quanto ler, escrever, refletir. É sobre lembrar que a tecnologia deve servir à educação, e não o contrário. Somente assim, poderemos construir um futuro em que a inovação tecnológica realmente contribua para uma educação mais justa e inclusiva para todas as crianças.

Referências:

Raphael Borella
Escrito por: Raphael Borella
Mestre em Análise de Políticas Públicas pela USP e Bacharel em Administração Pública pela UNESP. Nos últimos 10 anos, se dedica ao setor de impacto social e filantropia com um foco especial na Educação Pública, tendo passado por institutos e fundações como Associação Nova Escola, Instituto Akatu e Oficina Municipal.
Desenvolve pesquisa na área de Planejamento Governamental e Educação. É membro do Laboratório de Gestão Governamental (Lab.Gov) da USP.
Possui vasta experiência com gestão e implementação de projetos sociais e políticas públicas, fundraising e estruturação de negócios de impacto. Faz parte do Instituto desde a fundação, tendo sido responsável pelo planejamento estratégico, estruturação interna, composição de equipes e administração geral.
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