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01.04.26 às 17:41
O Censo Escolar 2025 e a pluralidade regional da educação brasileira
Avanços, desafios e desigualdades que refletem a pluralidade regional da educação brasileira.
Censo Escolar 2025

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O Censo Escolar 2025, divulgado pelo MEC em 26 de fevereiro de 2026, traz um retrato atualizado da educação básica brasileira, e com ele, questões relevantes para gestores, pesquisadores e todos que acompanham políticas educacionais. O panorama nacional do Censo levanta debates importantes sobre acesso e infraestrutura nas escolas do país anualmente. Porém, os números agregados nem sempre capturam as nuances de um país tão diverso e complexo quanto o Brasil. Como os dados se comportam quando olhamos mais de perto para as regiões?

Um dos pontos de maior atenção é o avanço no acesso à creche, pauta importante por estar inclusa na Meta 1 do PNE 2014-2024. A Meta estabelecia que 50% das crianças de 0 a 3 anos estivessem matriculadas em creches ao final do decênio – e o país encerrou o período com cerca de 40%. Os resultados do censo desse ano mostram um eco tardio do avanço feito em relação às metas do antigo PNE, e servem como diagnósticos importantes para mapear o avanço e construir objetivos realísticos para o novo ciclo. Entre 2023 e 2025, o número de matrículas na etapa se estagnou, e essa estagnação revela divergências regionais importantes. As regiões Sul e Sudeste registraram quedas de 2,3% e 1,3%, respectivamente, desde 2024, o que praticamente anulou os avanços obtidos no período anterior. Em contrapartida, outras regiões seguiram na direção oposta: o Centro-Oeste registrou o segundo maior crescimento do país, com 7,1% de novas matrículas, superado apenas pelo Norte, com 7,9%. Antes de interpretar essa queda como retrocesso, é preciso contextualizá-la com dados populacionais atualizados: se o número de crianças de 0 a 3 anos também diminuiu na região, a estagnação nas matrículas pode esconder um avanço real na cobertura — o que só os dados da PNADc do IBGE permitem confirmar.

No monitoramento acumulado desde 2016, as regiões que mais avançaram foram Sudeste e Centro-Oeste, com ganhos de 11,1 e 9,3 pontos percentuais, respectivamente, encerrando o ciclo com 48,5% e 35,2% de cobertura. Um progresso real, ainda que insuficiente para o cumprimento da meta;

Evolução das matrículas em creche por rede de ensino - Brasil - 2021-2025

As desigualdades de acesso também se expressam no território. Em 2024, apenas 25,2% das crianças de 0 a 3 anos em zonas rurais estavam matriculadas em creches, frente a 43,8% nas zonas urbanas — uma lacuna de quase 20 pontos percentuais que evidencia o quanto a universalização da etapa ainda é um desafio de larga escala. No Centro-Oeste, o Mato Grosso do Sul se destaca com o maior percentual de matrículas na etapa (41,6%), embora o Censo deste ano aponte estagnação no estado.

Outro indicador divulgado com o Censo é o da distorção idade-série, que mede o atraso escolar por meio do percentual de estudantes com idade superior à adequada para a série. Em 2025, o país segue observando uma redução no atraso escolar, com uma queda de 11 pontos percentuais desde 2020. Porém, esse avanço também é sensível à localidade – em comunidades rurais no país inteiro, a taxa média de distorção idade-série no ensino médio é de 30%, 11 pontos percentuais acima da taxa média das zonas urbanas.

Taxa de distorção idade-série por localização - Ensino Médio (Classe Comum)

Esta discrepância com base na localização é mais evidente na regiões Norte, com aproximadamente 22 pontos percentuais de diferença entre zonas rurais e urbanas.

Outro ponto relevante é o ritmo de expansão das matrículas em tempo integral. Nacionalmente, o percentual no ensino médio da rede pública saltou de 16,7% em 2021 para 26,8%, impulsionado em grande parte pelo Programa Escola em Tempo Integral. O Centro-Oeste, com 15,7% de matrículas em tempo integral no ensino médio, ainda fica abaixo da média nacional e muito distante do Nordeste, que lidera com 40,4%.

Percentual de matrículas do ensino médio articuladas a curso técnico do IFTP e percentual de matrículas do ensino médio em tempo integral por regiões - 2025

O Censo também oferece um retrato dos diretores escolares que merece atenção. No Centro-Oeste, 97% dos diretores possuem curso superior — o maior percentual entre todas as regiões e acima da média nacional de 92,6%. Ainda mais expressivo é o dado sobre vínculo institucional: 91,3% dos diretores da rede pública da região são concursados, efetivos ou estáveis, frente a uma média nacional de 77,7%.

Percentual de diretores com curso superior por dependência administrativa, segundo a região - 2025

Por fim, diante dos avanços tecnológicos globais, a infraestrutura digital das escolas é outro indicador que revela tanto avanços quanto desigualdades persistentes. Na esfera nacional, o percentual de escolas de educação básica com acesso à internet saltou de 82,8% em 2021 para 94,5% em 2025. O Centro-Oeste se destaca positivamente nesse cenário, com 99,4% das escolas conectadas, índice próximo ao da região Sul (99,5%) e muito acima da média nacional. A rede municipal da região acompanha esse movimento, com 98,9% das escolas com internet disponível. O desafio, porém, está em transformar conectividade em uso pedagógico efetivo: na rede municipal brasileira como um todo, apenas 40,8% das escolas de ensino fundamental dispõem de internet acessível aos estudantes, e há grandes disparidades no acesso a outros recursos tecnológicos.

Disponibilidade (%) de recursos tecnológicos nas escolas de ensino fundamental por dependência administrativa, segundo o recurso - 2025

Os dados do Censo Escolar 2025 são uma prova da pluralidade do Brasil, que não pode ser compreendida apenas pelos seus números em âmbito nacional. Olhar para o regional não é apenas um exercício acadêmico, mas é um pré-requisito para políticas educacionais efetivas e relevantes. Metas e políticas cegas às especificidades regionais, correm o risco de inviabilizar a implementação e os avanços pretendidos. O Censo Escolar existe precisamente para tornar essa diversidade legível, e acessível para tomadores de decisão na esfera educacional do nosso país. O novo Plano Nacional de Educação, aprovado pela Câmara em dezembro de 2025, aguarda votação no Senado como prioridade da pauta legislativa de 2026. O plano organizará metas e estratégias educacionais para os próximos dez anos — e os dados do Censo chegam como um diagnóstico preciso do ponto de partida, para que seja possível entender onde estamos antes de assumir novos compromisso – uma condição para que as metas do novo PNE sejam realistas, territorialmente ancoradas e, desta vez, cumpridas.

Referências:

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Censo Escolar da Educação Básica 2025: notas estatísticas. Brasília, DF: Inep, 2026. Disponível em: download.inep.gov.br. Acesso em: 11 mar. 2026.

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Censo Escolar da Educação Básica 2025: apresentação coletiva de resultados. Manaus: Inep, 26 fev. 2026. Disponível em: download.inep.gov.br. Acesso em: 11 mar. 2026.

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Estatísticas do Censo Escolar: Inep Data. Brasília, DF: Inep, 2026. Disponível em: gov.br/inep. Acesso em: 11 mar. 2026.

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Painel de Monitoramento do PNE. Brasília, DF: Inep, 2026. Disponível em: gov.br/inep. Acesso em: 11 mar. 2026.

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Sinopse Estatística do Censo Escolar 2025. Brasília, DF: Inep, 2026. Disponível em: app.powerbi.com. Acesso em: 11 mar. 2026.

TODOS PELA EDUCAÇÃO. Novo Plano Nacional de Educação. São Paulo: Todos Pela Educação, 2026. Disponível em: todospelaeducacao.org.br/novo-plano-nacional-de-educacao. Acesso em: 11 mar. 2026.

AGÊNCIA SENADO. Senado começa 2026 com a missão de aprovar o novo PNE. Brasília, DF: Senado Federal, 5 jan. 2026. Disponível em: senado.leg.br/noticias. Acesso em: 11 mar. 2026.

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