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03.07.26 às 14:47
O que redes de ensino com bons resultados em alfabetização têm em comum?
Conheça as práticas identificadas em redes de ensino com bons resultados em alfabetização e como elas fortalecem a gestão educacional.
Redes de Ensino e Alfabetização

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A alfabetização tem ocupado um espaço cada vez maior no debate sobre a qualidade da educação pública. Nos últimos anos, pesquisas e avaliações vêm ajudando a identificar não apenas os desafios, mas também as estratégias adotadas por redes de ensino que conseguem avançar de forma consistente.

Uma dessas contribuições é a pesquisa Panorama da Alfabetização no Brasil, realizada pelo LEPES — Laboratório de Estudos e Pesquisas em Economia Social da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto — e pela Cátedra Instituto Ayrton Senna de Inovação em Avaliação Educacional, com financiamento da Fundação Lemann, Instituto Natura e Parceiros da Educação.

Ao conhecer os resultados do estudo, alguns pontos chamaram minha atenção, especialmente por dialogarem com o trabalho que o Instituto Max Fabiani vem desenvolvendo junto a municípios de Mato Grosso do Sul. A pesquisa analisa quatro redes municipais de ensino do estado de São Paulo que apresentaram os melhores resultados em alfabetização e identifica características que ajudam a explicar esses avanços.

Embora muitas dessas práticas já sejam conhecidas por gestores e especialistas da área, o estudo mostra que elas vêm sendo implementadas de forma consistente em diferentes contextos, produzindo resultados concretos. A seguir, compartilho algumas das evidências que considero mais relevantes.

1. Continuidade da gestão e coerência das ações pedagógicas

  • Processos internos da secretaria bem estruturados e claros.
  • Boa comunicação e articulação entre a Seduc e a comunidade escolar, incluindo famílias.
  • Perenidade das ações pedagógicas da rede, ou seja, consistência nas políticas públicas voltadas à aprendizagem até que elas, de fato, se firmem.

2. Cultura formativa sólida e voltada à prática

  • Formação continuada orientada à prática docente e alinhada ao currículo utilizado pelo município.
  • Seleção/utilização de formadores da própria rede, experientes e preparados.
  • Acompanhamento sistemático do formador na ponta, ou seja, a Seduc tem um plano de acompanhamento escolar pós-formação continuada para saber se o que foi trabalhado está sendo, de fato, utilizado no dia a dia.
  • HTPC utilizado 100% para formação.

3. Acompanhamento pedagógico estruturado

  • Equipe técnica realiza assessoria pedagógica de forma regular e estruturada.
  • Devolutiva pedagógica para professores e gestores baseada nas orientações formativas, de forma individualizada.

4. Uso intencional de dados para tomada de decisão

  • Cultura de avaliação de aprendizagem internalizada na rede.
  • Monitoramento frequente dos dados, em que a Seduc desenvolve as formações a partir das avaliações formativas e somativas.
  • Uso prático dos dados da avaliação para o planejamento de aulas, sendo que os resultados das avaliações serviam tanto para pensar em formações quanto nos próprios planos de aula. Assim, eles atendem a uma demanda mais imediata, com planos de aula adaptados aos resultados, e de médio/longo prazo, com formação continuada.

5. Materiais didáticos alinhados

  • Todas essas redes utilizavam material oferecido pelo próprio estado e faziam o uso completo desse material, desde o professor até o aluno.
  • Todos os municípios apresentaram ações específicas de incentivo ao hábito da leitura, como cantinhos, estantes, bibliotecas etc.

6. Atenção à transição entre etapas

  • Atividades que favorecem a oralidade e a leitura desde os primeiros anos da Educação Infantil.
  • As redes tinham como foco a transição. Então, os profissionais que ocupam posições que lidam com os desafios de transição eram formados e acompanhados especificamente sobre isso.

Além disso, também são relevantes as experiências de outras organizações — como o próprio Instituto Ayrton Senna, o Instituto João e Maria Backheuser e a Associação Bem Comum — que vêm desenvolvendo ações concretas nos municípios e alcançando bons resultados. Fica evidente como os desafios são semelhantes entre os territórios e como a troca de experiências fortalece o terceiro setor, gera aprendizado coletivo e acelera soluções mais eficazes.

Esse tipo de troca ajuda a mostrar que muitos desafios podem ser semelhantes entre os territórios, mas que também existem caminhos possíveis sendo construídos na prática. Quando uma rede consegue transformar diagnóstico, formação, acompanhamento e uso de dados em rotina, os avanços deixam de depender apenas de boas intenções e passam a fazer parte da gestão, gerando impacto real na educação.

Que esse diálogo entre redes, organizações e pesquisadores se torne cada vez mais frequente. A alfabetização exige evidências, continuidade e construção coletiva.

Confira a pesquisa completa aqui.

Raphael Borella
Escrito por: Raphael Borella
Mestre em Análise de Políticas Públicas pela USP e Bacharel em Administração Pública pela UNESP. Nos últimos 10 anos, se dedica ao setor de impacto social e filantropia com um foco especial na Educação Pública, tendo passado por institutos e fundações como Associação Nova Escola, Instituto Akatu e Oficina Municipal.
Desenvolve pesquisa na área de Planejamento Governamental e Educação. É membro do Laboratório de Gestão Governamental (Lab.Gov) da USP.
Possui vasta experiência com gestão e implementação de projetos sociais e políticas públicas, fundraising e estruturação de negócios de impacto. Faz parte do Instituto desde a fundação, tendo sido responsável pelo planejamento estratégico, estruturação interna, composição de equipes e administração geral.

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