A alfabetização tem ocupado um espaço cada vez maior no debate sobre a qualidade da educação pública. Nos últimos anos, pesquisas e avaliações vêm ajudando a identificar não apenas os desafios, mas também as estratégias adotadas por redes de ensino que conseguem avançar de forma consistente.
Uma dessas contribuições é a pesquisa Panorama da Alfabetização no Brasil, realizada pelo LEPES — Laboratório de Estudos e Pesquisas em Economia Social da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto — e pela Cátedra Instituto Ayrton Senna de Inovação em Avaliação Educacional, com financiamento da Fundação Lemann, Instituto Natura e Parceiros da Educação.
Ao conhecer os resultados do estudo, alguns pontos chamaram minha atenção, especialmente por dialogarem com o trabalho que o Instituto Max Fabiani vem desenvolvendo junto a municípios de Mato Grosso do Sul. A pesquisa analisa quatro redes municipais de ensino do estado de São Paulo que apresentaram os melhores resultados em alfabetização e identifica características que ajudam a explicar esses avanços.
Embora muitas dessas práticas já sejam conhecidas por gestores e especialistas da área, o estudo mostra que elas vêm sendo implementadas de forma consistente em diferentes contextos, produzindo resultados concretos. A seguir, compartilho algumas das evidências que considero mais relevantes.
1. Continuidade da gestão e coerência das ações pedagógicas
- Processos internos da secretaria bem estruturados e claros.
- Boa comunicação e articulação entre a Seduc e a comunidade escolar, incluindo famílias.
- Perenidade das ações pedagógicas da rede, ou seja, consistência nas políticas públicas voltadas à aprendizagem até que elas, de fato, se firmem.
2. Cultura formativa sólida e voltada à prática
- Formação continuada orientada à prática docente e alinhada ao currículo utilizado pelo município.
- Seleção/utilização de formadores da própria rede, experientes e preparados.
- Acompanhamento sistemático do formador na ponta, ou seja, a Seduc tem um plano de acompanhamento escolar pós-formação continuada para saber se o que foi trabalhado está sendo, de fato, utilizado no dia a dia.
- HTPC utilizado 100% para formação.
3. Acompanhamento pedagógico estruturado
- Equipe técnica realiza assessoria pedagógica de forma regular e estruturada.
- Devolutiva pedagógica para professores e gestores baseada nas orientações formativas, de forma individualizada.
4. Uso intencional de dados para tomada de decisão
- Cultura de avaliação de aprendizagem internalizada na rede.
- Monitoramento frequente dos dados, em que a Seduc desenvolve as formações a partir das avaliações formativas e somativas.
- Uso prático dos dados da avaliação para o planejamento de aulas, sendo que os resultados das avaliações serviam tanto para pensar em formações quanto nos próprios planos de aula. Assim, eles atendem a uma demanda mais imediata, com planos de aula adaptados aos resultados, e de médio/longo prazo, com formação continuada.
5. Materiais didáticos alinhados
- Todas essas redes utilizavam material oferecido pelo próprio estado e faziam o uso completo desse material, desde o professor até o aluno.
- Todos os municípios apresentaram ações específicas de incentivo ao hábito da leitura, como cantinhos, estantes, bibliotecas etc.
6. Atenção à transição entre etapas
- Atividades que favorecem a oralidade e a leitura desde os primeiros anos da Educação Infantil.
- As redes tinham como foco a transição. Então, os profissionais que ocupam posições que lidam com os desafios de transição eram formados e acompanhados especificamente sobre isso.
Além disso, também são relevantes as experiências de outras organizações — como o próprio Instituto Ayrton Senna, o Instituto João e Maria Backheuser e a Associação Bem Comum — que vêm desenvolvendo ações concretas nos municípios e alcançando bons resultados. Fica evidente como os desafios são semelhantes entre os territórios e como a troca de experiências fortalece o terceiro setor, gera aprendizado coletivo e acelera soluções mais eficazes.
Esse tipo de troca ajuda a mostrar que muitos desafios podem ser semelhantes entre os territórios, mas que também existem caminhos possíveis sendo construídos na prática. Quando uma rede consegue transformar diagnóstico, formação, acompanhamento e uso de dados em rotina, os avanços deixam de depender apenas de boas intenções e passam a fazer parte da gestão, gerando impacto real na educação.
Que esse diálogo entre redes, organizações e pesquisadores se torne cada vez mais frequente. A alfabetização exige evidências, continuidade e construção coletiva.
Confira a pesquisa completa aqui.
